O
boletim de ocorrência da morte do adolescente Kaique Augusto dos Santos, 17
anos, encontrado com o rosto desfigurado e com sinais de espancamento no último
sábado vem gerando polêmica pela suposta causa da morte relatada pelos
policiais militares que atenderam a ocorrência. Segundo o documento, a causa da
morte foi registrada provisoriamente como suicídio, até que o caso seja
apurado.
A
família do adolescente, porém, contesta essa versão e acredita que ele tenha
sido vítima de um crime de ódio, pelo fato de ser negro e homossexual. “As
pessoas dizem que os assassinos podem ser skinheads. Eu acredito que quem matou
o meu irmão nem o conhecia, pois esse tipo de crime contra gays é comum,
infelizmente”, falou a irmã de Kaique, Tayna Chidiebere, 19 anos.
Segundo
Tayna, a adolescente foi encontrado com sinais de espancamento, com o rosto
desfigurado e sem os dentes. “Ele estava cheio de hematomas e fraturas.
Atravessaram sua perna com uma barra de ferro, o que fez o legista acreditar
que ele tenha sido muito torturado antes de morrer”, falou.
Veja o
boletim de ocorrência na íntegra:
“Um homem de identidade desconhecida foi encontrado morto neste
sábado por volta das 4h30 na avenida Nove de Julho, na região central da
capital. O caso foi registrado por suicídio. Policiais militares foram
acionados para atender a uma ocorrência de uma pessoa que teria caído de um
viaduto, aparentemente se suicidando. PMs preservaram o local até a chegada do
delegado responsável, que confirmou o relato dos policiais militares e fez o
registro provisório da ocorrência como suicídio até a apuração do caso.
Até o registro do boletim de ocorrência não foi possível obter os
dados da vítima.
Foi requisitada a perícia para o local e carro de cadáver para
remoção do corpo. Além disso, foram solicitados exames necroscópicos, clínico e
toxicológico e coleta de impressões datiloscópicas. O caso foi registrado como
suicídio no 2º DP, mas será encaminhado para o 3º DP, responsável pela área do
fato.”
Crime e mistério
O
corpo de Kaique foi encontrado pela Polícia Militar na madrugada de sábado, mas
só foi reconhecido pela família na manhã de terça-feira. Segundo a irmã do
adolescente, foram quase 24 horas de buscas e uma suposta falha na
identificação no IML central fez com que a procura fosse prolongada.
Segundo
Tayna, Kaique foi para uma balada na noite de sexta-feira com alguns amigos, na
região da República, onde desapareceu após algumas horas. Segundo relato dos
colegas do jovem, ele foi visto pela última vez em frente ao palco da casa
noturna PZÁ. Depois, ele teria saído do estabelecimento sozinho ou com outra
pessoa que não fazia parte do grupo.
Colegas
de Kaique imaginaram que ele poderia estar na casa de algum colega, mas, com o
passar do tempo, a preocupação acabou tomando conta de toda a família.
No
mesmo dia, familiares iniciaram a busca. A mãe de Kaique foi até o Hospital das
Clínicas e Instituto Médico Legal (IML), onde não encontrou nenhum registro de
vítimas com as características do adolescente. Após a busca inicial, mãe e
filha foram para o 4º DP, na Consolação. “Chegando lá, um policial disse que
ele deveria estar na casa de algum amigo, já que ele era homossexual. Eles me
mandaram para o DHPP (Departamento de Homicídio e de Proteção à Pessoa), para
registrar o desaparecimento. Lá (DHPP), me disseram que era para acompanhar o
andamento da investigação por uma semana, mas que ele poderia estar na casa de
algum conhecido”, disse Tayna.
No
anoitecer da segunda-feira, o irmão da jovem foi até o IML mais uma vez, onde
recebeu a informação de que novos corpos haviam chegado. “Haviam novos corpos,
mas disseram que não podiam mostrar, já que o legista não estava lá e não
existiam nem fotos dos cadáveres”.
Na
noite de segunda, a mãe de Kaique retornou à boate onde ele foi visto e
“interrogou” os seguranças. Segundo os funcionários, no dia do sumiço houve sim
uma briga no local. Os seguranças, porém, não souberam dizer se Kaique estava
entre os envolvidos.
Na
manhã seguinte, ao sair mais uma vez do prédio do DHPP, Tayna recebeu uma
ligação do irmão mais velho, que fazia a terceira visita ao IML. Em choque, ela
recebeu a notícia de que o corpo de Kaique havia, finalmente, sido encontrado.
Segundo
ela, o corpo estava no IML como indigente desde sábado.
Protesto
A
morte do adolescente, supostamente motivada pela sua orientação sexual, fez com
que amigos e simpatizantes do movimento gay organizassem um ato por Justiça
nesta sexta-feira. O ato, que está marcado para o Largo do Arouche, passará
pela avenida Nove de Julho – local onde Kaique foi encontrado – e terá como
destino a Câmara Municipal de São Paulo, “para chamar atenção das autoridades
competentes”. O evento foi marcado para 18h30 de hoje.
Paralelo
a isso, uma petição online foi criada nesta quarta, pedindo "que este caso
não seja arquivado tornando-se parte de mais uma estatística de casos não
solucionados, caindo no esquecimento de nossas autoridades e população". A
mensagem foi encaminhada ao Ministério Público de São Paulo, para que acompanhe
as investigações policiais.
Por Terra
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