Baía de sangue: O luto de uma tragédia anunciada

Familiar de uma das vítimas chora | Foto: Luana Ribeiro

A Bahia despertou nesta quinta-feira (24) com a trágica notícia de que uma embarcação com mais de 100 pessoas naufragara na Baía de Todos-os-Santos. Enquanto as primeiras horas se passavam, informações desencontradas quanto ao número de vítimas ou mesmo sobre as condições em que o acidente aconteceu circularam nas redes sociais e a imprensa, aparentemente pouco acostumada com tragédias de grandes proporções, vomitou o que estava disponível. Nem as próprias autoridades se entenderam até o final da manhã: o número de mortos, que chegou a 23, foi diminuído depois por nomes “duplicados” na contagem de óbitos. Até mesmo o controle de quantas pessoas estavam no barco era temerário. Começou com 129 e terminou com nove pessoas a menos expostas aos limites da sobrevivência durante o naufrágio. O bate-cabeça, no entanto, não diminui o luto dessas 120 vítimas diretas de uma tragédia que há tempos se anunciava. A travessia Mar Grande – Salvador, apesar de considerada segura e devidamente regular e fiscalizada pela Agerba – está longe de ser o mais seguro meio de transporte para ligar a Ilha de Itaparica à capital baiana. E a outra opção, o ferry-boat e todas as suas mazelas, não está no auge na qualidade na prestação de serviços públicos. Após o naufrágio, pulularam relatos de usuários do sistema sobre as condições das embarcações que fazem a travessia, com destaque negativo para a Cavalo Marinho I, palco de um dia de sangue para a baía. A penúria de quem reside na Ilha de Itaparica e precisa se deslocar para Salvador é visível a olhos nus. Basta ver a indignação com que os usurários reagiram ao acidente. Nas entrevistas, no Terminal Marítimo de Salvador, eram unânimes as declarações de que a falta de segurança era parte do cotidiano e que não havia muita preocupação com a explicação sobre os procedimentos para lidar com emergências. Nunca vai acontecer por aqui, não é? Não foi isso que a Baía-de-Todos-os-Santos informou. O mar deu um golpe duro no estômago de todos os baianos, acostumados a ver as belezas que escondem o perigo para quem não sabe lidar com ele. Foi um dia de luto para a baía. O dia em que ela ficou marcada pela morte de, no mínimo, 18 pessoas. Um dia triste, resumido pelo registro do fotógrafo Xando Pereira, do jornal A Tarde. O corpo inerte do pequeno garoto de 2 anos, resgatado com vida, mas que não resistiu à reanimação da equipe médica.


Este texto integra o comentário desta sexta-feira (24) para a RBN Digital, veiculado às 7h e às 12h30, e para as rádios Irecê Líder FM e Clube FM.




por Fernando Duarte

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